Setorial de mulheres

Comissão realiza hoje nova audiência pública sobre a reforma política

Postado por: setorialdemulheres em: ● 7 de abril de 2011

A Comissão Especial da Reforma Política promove em instantes audiência pública com a socióloga Guacira César de Oliveira, diretora do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea). O Cfemea é uma organização não governamental que integra a Articulação das Mulheres Brasileiras.

O debate foi sugerido pela deputada Luiza Erundina (PSB-SP) e ocorrerá no plenário 2.

Seminários regionais
Os líderes partidários, juntamente com o presidente da Comissão Especial da Reforma Política, deputado Almeida Lima (PMDB-SE), definiram ontem as datas dos três primeiros seminários regionais para debater o tema: 29 de abril (em Sergipe), 2 de junho (Goiás) e 6 de junho (São Paulo). Paraíba, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul ainda não têm datas definidas.

A comissão realizará duas rodadas de seminários regionais nos estados, já que mais de um estado em uma mesma região geográfica apresentou interesse em debater a reforma política. Ao todo, serão dez seminários regionais com a participação direta da população.

Almeida Lima sugeriu que, antes dos debates regionais, a comissão se reúna com os presidentes das assembleias legislativas e das câmaras de vereadores das capitais brasileiras. “Os deputados estaduais e os vereadores podem trazer a sua contribuição para aprimorar as discussões em torno da reforma política. Além do mais, eles também estão em contato direto com a população e esse retorno é estratégico nesse momento”, afirmou.

*Matéria atualizada às 9h21

Da Redação/PT

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Sem apoio de companheiros, mulheres deixam de investir na vida profissional

Postado por: setorialdemulheres em: ● 21 de março de 2011

Por: Suzana Vier, Rede Brasil Atual

Falta aos homens entender a necessidade de compartilhar as responsabilidades domésticas (Foto: Marcelo Justo/Folhapress)

São Paulo – A falta de contrapartida masculina na divisão do trabalho doméstico impede que as mulheres invistam em formação ou na autonomia profissional. A avaliação é do  coordenador da pesquisa “Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado”, Gustavo Venturi.  O estudo  foi realizado pela Fundação Perseu Abramo em parceria com o Serviço Social do Comércio (Sesc) em 2010.

“Um dado que chamou a atenção é que embora haja vários indicadores positivos não aumentou a porcentagem de mulheres que dizem que se pudessem decidir livremente escolheriam investir mais na construção de sua autonomia pelos estudos e trabalho antes de constituir uma família”, afirma o cientista político e professor da Universidade de São Paulo (USP). O que significa que a dedicação à casa e à família acaba acontecendo em detrimento à autonomia profissional feminina.

Venturi analisa que a divisão de trabalho não ocorreu como se imaginava na pesquisa anterior, realizada em 2001 pela Fundação. “A saída da mulher para o mundo público e do trabalho em busca de autonomia acarretou um peso grande que é a dupla jornada”, contextualiza o pesquisador. “Os homens não têm aliviado esse peso para as mulheres em relações conjugais”, complementa.

A dificuldade de conciliar os aspectos profissionais com a vida pessoal  “está fazendo as mulheres pensarem duas vezes em avançar muito fora de casa”, acredita o cientista político. Mas de forma geral, a pesquisa encontrou uma mulher em busca de sua autonomia, destaca Venturi.

A prevalência da mulher no espaço doméstico também explicaria a incidência maior da ideia de que “para educar bem os filhos, às vezes, é preciso dar uns tapas neles” entre mulheres . Cerca de 75% das mulheres se manifestaram nesse sentido, ante 59% dos homens.

“Nós temos ainda uma herança patriarcal milenar, bastante criticada, que gradualmente se transforma”, aponta. “Mas é um processo lento de transformação”, admite Venturi.

Até pouco tempo constava no Código Civil a figura do pátrio poder, que diferenciava o poder de homens e mulheres na criação dos filhos, lembra o pesquisador.

A própria origem da palavra família, derivada do latim “famulus”, está relacionada ao conjunto de escravos sobre o qual o cidadão romano tinha pátrio poder. Além dos escravos, faziam parte desse conceito mulheres e filhos, diz Venturi.

Fonte:http://www.redebrasilatual.com.br/temas/cidadania/2011/03/sem-apoio-de-companheiros-mulheres-deixam-de-investir-na-vida-profissional

Ativistas na vida e na rede

Postado por: setorialdemulheres em: ● 21 de março de 2011

Por: Letícia Cruz e Virgínia Toledo

Conceição Oliveira, blogueira do www.viomundo.com.br/blog-da-mulher (Foto:Maurício Morais/Revista do Brasil)

“Todo dia ela faz tudo sempre igual, me sacode às 6 horas da manhã…” O verso de Cotidiano, de Chico Buarque, retrata a rotina de um casal nos anos 1970 e poderia traduzir a vida dessas mulheres. Elas acordam cedinho, algumas levam filhos à escola e, depois, mãos à obra. Passividade, porém, não é com elas. São ativistas, feministas, femininas, blogueiras. As novas tecnologias abrem portas. Basta haver conexão, computador, ou celular, e boas ideias. E essas mulheres têm muitas. Para elas, a educação e o acesso à informação vão além das paredes da escola e do papel da família – o espaço para o “embate” é ilimitado.

Maria da Conceição Oliveira é dona do blog Maria Frô (www.mariafro.com.br). Frô vem de Afrodite, deusa grega do amor, capaz de deixar maluco o próprio Zeus. Mitologias à parte, a paulista nascida em Santos se formou em História pela USP e sabe tudo de educação e cultura. Ao receber a reportagem, nota-se que a polêmica sobre a internet vir a acabar com o livro impresso não tem espaço em suas estantes: “Minha casa é tomada por livros. Estão por todos os lados, não se assustem!”

O colégio da filha é perto de casa, mas o trânsito… “É infernal! Levar uma hora para ir até ali e voltar é sinal de falta de política pública.” Pronto, pauta para o blog, que analisa o contraste entre o mundo imaginário da mídia tradicional e o real. A facilidade em se comunicar, segundo ela, vem da indignação: “Quando vejo o cotidiano grotesco, preciso externar”.

Quem navega pelo blog de Maria Frô encontra um estilo didático, sem firulas. Assim também no Blog da Mulher, dentro do site Vi o Mundo, do jornalista Luiz Carlos Azenha, onde Frô assina Conceição Oliveira. Ali, questões como preconceito racial e de gênero viram grandes discussões. “É preciso ter preocupação com o leitor e deixar de pensar que tudo é óbvio”, afirma. “Tento usar minha função de educadora para desenvolver a leitura de uma maioria que não exercita isso.”

A imagem da mulher na mídia

Claudia Cardoso, do blog Dialógico, que aborda política e o cotidiano no Rio Grande­ do Sul, não o alimenta com regularidade­ desde que foi convidada a trabalhar na comunicação do governo estadual, em janeiro, mas considera-se uma militante em atividade pela democratização da informação, privilegiando o recorte feminista. “Existem grupos de discussão de blogueiras que fazem o trabalho­ de questionar a imagem da mulher­ na mídia, a violência contra a mulher e tantos outros desafios importantes. Ferramentas como a internet ajudam a manifestar nosso pensamento”, resume. Está ali, pronto para ser frequentado a qualquer momento, esse cada vez mais explorado campo de batalha.

Feminina, feminista

A jornalista Ruth Alexandre também anseia pôr a boca no mundo. Acorda às 6, leva o filho para a escola, volta e gruda no computador para abastecer seu blog Fala Povo. Produz material próprio e links para o que considera importante. “Eu já estava cansada daquele jornalismo plastificado.” Ruth conta que sempre se colocou em patamar de igualdade, tanto no meio jornalístico como com autoridades do sexo masculino. “Eu não abaixo a cabeça para ninguém. Todo mundo sabe que pode vir quente, porque se precisar aqui o berimbau toca mesmo”, brinca.

Ela educa seus dois meninos para, quando estiverem convivendo com uma mulher, tratá-la em pé de igualdade. “ ‘Não esqueçam que sua mãe é mulher, sua avó é mulher e você vai ter filhas’. Digo isso para que eles tenham absoluta certeza de que merecemos o maior respeito”, ensina. “Feminina a gente já nasce um pouco e, ao resto, somos moldadas”, afirma, referindo-se ao que chama de processo de “adestramento” a que a indústria cultural, do consumo e das relações sociais ainda submetem as mulheres.

Na época em que a questão do aborto ocupou o centro das atenções na campanha eleitoral, Ruth escreveu um post sobre uma experiência própria. “Tive um aborto espontâneo e fui para o hospital, quase ao passo de morrer. Lá, uma mulher me interrogou como se eu fosse criminosa e como se tivesse feito aquilo de propósito”, lembra, observando como a cultura machista enraizada não se expressa somente pelos homens. “Para tentar desestruturar a candidatura de uma mulher à Presidência, tentaram de tudo”, indigna-se. “O aborto é uma questão feminina e feminista e, incontestavelmente, tem de ser decidida por nós mulheres.”

E que venha o debate. Manter blog é estar pronto para conviver com admiradores e detratores. E conviver com os contrários é um exercício que agrada Conceição Oliveira. “Procuro argumentar e questionar essas pessoas do porquê de determinado pensamento, debater e sugerir a elas algum tipo de reflexão.”

Não é preciso busca minuciosa para chegar a dezenas, centenas, milhares de páginas na internet sobre moda, comportamento, beleza, algumas utilidades e outras tantas futilidades. Mas aos poucos, sobretudo na blogosfera, surgem as mulheres que querem aproveitar o tempo e o espaço para fugir dos estereótipos que acentuam uma desigualdade a ser superada. “Tenho uma filha que joga futebol melhor que muito homem. Mulher não precisa falar só sobre um assunto. Pode explorar outras coisas de acordo com o humor que estiver no dia”, afirma Conceição Oliveira.

Batalha contra o tempo

Para Andrea Dip, a vida de blogueira-comunicadora tem de se encaixar em outra realidade não menos importante, a de ser mãe. Desde a época da faculdade, ela escrevia muito sobre direitos humanos, direito da mulher, da igualdade, da liberdade e principalmente sobre os costumes da sociedade. Foi quando a vida antecipou-lhe uma nova vocação: a gravidez ainda no último ano de Jornalismo, e o desafio de

conciliar os ofícios de “recém-mãe” e recém-formada. “Quando a gente engravida, a sociedade vem com aquela história da mulher em estado de graça, de perfeição, mas eu vivi aquilo e sabia que não era bem assim. Não é fácil administrar carreira, filho e casa. Tudo isso é adaptação, e não uma condição”, afirma.

Com o filho crescendo e a rotina se intensificando, um amigo sugeriu que ela dividisse os sabores e dissabores de seu dia a dia com outras pessoas. Foi aí que surgiram as histórias inusitadas de Mães em Surto, uma coluna criada dentro do blog Nota de Rodapé.

As crônicas de Andrea seguem à risca as desventuras que as mães vivem e também passeiam por temas sugeridos por amigas que passam pela mesma empreitada. Com o trabalho fixo num grande portal, os “frilas” para completar o orçamento, o cuidar da casa e da “agenda” em torno do filhote, é difícil manter a regularidade dos posts. Mas pelo menos a página está lá, sempre pronta para o momento em que a inspiração, disposição e disponibilidade se encontrem no mesmo lapso de tempo.

Ruth Alexandre - Blog falapovo.com - Maurício Morais

Além do gênero

A jornalista Conceição Lemes, de tão assídua frequentadora e comentarista do blog Vi o Mundo, passou a sugerir e produzir pautas. A primeira foi sobre o Cansei – movimento hostil ao governo Lula que surgiu em 2007 – ter incluído indevidamente o Conselho Regional de Medicina de São Paulo entre seus integrantes. Outra abordava a campanha alarmista de grandes jornais para que a população se vacinasse em massa contra a febre amarela. E assim sua participação foi crescendo, até que recebeu o convite formal de Luiz Carlos Azenha para que mantivesse sua coluna sobre saúde.

Repórter especializada na área há 29 anos, com oito livros publicados e mais de 20 prêmios, Conceição encontrou no blog um espaço de liberdade. “O Vi o Mundo me possibilita fazer esse jornalismo de verdade, sério, o jornalismo em que acredito. Em outros veículos, as reportagens que faço não sairiam. Essa é a minha forma de estar na vida. Prefiro vender cachorro-quente a fazer um jornalismo em que não acredite”, afirma. Sua fonte de renda são projetos especiais ligados à saúde, livros, séries de reportagens etc. “O blog eu faço por prazer.”

O rigor é o principal ingrediente de suas reportagens. “Não faço jornalismo opinativo, artigo. Entrevisto especialistas, gosto de escarafunchar. Com todo esse tempo fazendo saúde, fui trilhando fontes éticas e competentes, às quais recorro sempre. Leio, checo, ‘tricheco’, vou atrás. Em saúde você não pode errar. É muito sério.” Além de atuar nessa área, no último ano Conceição ampliou sua atuação no Vi o Mundo, com reportagens investigativas.

Casada e sem filhos, ela dedica boa parte do seu dia à blogosfera, conversa com fontes, confere informações, insiste por entrevistas. “Minha vida é normal, ando, leio, vou ao cinema, cuido dos gatos. Antes eu tinha cachorros… Adoro bichos.” Seu sonho de jornalista full time nada mais é que “continuar exercendo a profissão de forma responsável”.

A blogosfera também é espaço para furar o cerco do clube do Bolinha. Futebol, por exemplo, é assunto de menina, sim, senhora. A jornalista Thalita Pires, que não tem como objetivo de carreira escrever sobre o esporte, leva essa paixão para o blog Futepoca – Futebol, Política e Cachaça, que já ganhou prêmio em 2007. Thalita trabalhou nas revistas Fórum e Época e no Jornal da Tarde, decidiu ir para Londres em 2008 com o marido para estudar e voltou de lá em 2010 com um mestrado em Planejamento Urbano. “Tema mais distante ainda do futebol”, pontua, mas no qual pretende se estabelecer profissionalmente. São-paulina, com uma “quedinha pela Portuguesa”, ela não se queixa de já ter recebido comentários preconceituosos por seus textos no Futepoca. “Sempre que há discordância de opinião os leitores tratam de argumentar, não de falar que eu deveria estar na cozinha.”

E, se há alguma ousadia no fato de meninas circularem com desenvoltura em ambientes tipicamente masculinos, a gaúcha Luísa Helena Stern vai ainda mais longe: nascida menino, ela decidiu corrigir esse capricho da natureza assumindo de corpo e alma o seu universo: “Sou uma mulher múltipla”, define-se. Transexual, Luísa é funcionária pública e divide seu tempo entre diversas tarefas, incluindo manter o blog Cultura Crossdresser, para defender o direito LGBT – de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros. Seu engajamento virtual tem o objetivo de disseminar uma reflexão da condição do homossexual e de tratar o tema com naturalidade, com discurso igualitário. “Já sofri muito preconceito, inclusive das redes sociais.”

Antes de tomar a decisão e se tornar transexual, a blogueira era crossdresser – pessoa de um sexo que se veste e age como se fosse­ do sexo oposto. “Vivi muito tempo nessa­ condição. Os crossdressers são pessoas­ escondidas­ do mundo real. No meu caso, recorria ao virtual para participar de grupos e clubes sobre crossdresser”, conta. “Meu blog foi criado por isso.” Depois que Luísa assumiu sua identidade feminina, outros assuntos vieram à tona, como o combate à homofobia, o ativismo para o direito dos transgêneros e o combate a toda forma de discriminação.

Fonte:http://www.redebrasilatual.com.br/revistas/57/ativistas-na-vida-e-na-rede

Construindo a igualdade: é hora das políticas públicas para as mulheres

Postado por: setorialdemulheres em: ● 15 de março de 2011

Por Angélica Fernandes

Essas lutas têm contribuído para a construção de políticas públicas voltadas para melhorar a vida de milhões de mulheres.
Esse processo de conquistas tem como objetivo atingir a igualdade entre mulheres e homens. Um dos seus pressupostos é distribuir renda e poder entre grupos. Ou seja, acolher as diferenças e enfrentar as desigualdades, por meio do diálogo entre os sujeitos coletivos e seus pertencimentos de raça/etnia, classe, geração, orientação sexual, etc. Ou seja, de forma a incidir na lógica tradicional que coloca as mulheres em condição de subordinação e inferioridade.
O governo Lula iniciou o processo de construção institucional das políticas para as mulheres com a criação da Secretaria de Políticas para Mulheres (SPM), que teve na realização das duas Conferências Nacionais seu grande auge. Assim como na criação de um importante marco legal: a Lei Maria da Penha, sinalizando para a construção de uma cidadania realmente democrática, sem violência ou discriminações.
Fica cada vez mais nítida a importância das políticas públicas de enfrentamento às desigualdades de gênero. Propor políticas públicas desse tipo exige estabelecer o sentido das mudanças, e se as pretendemos com um caráter verdadeiramente emancipatório. As desigualdades entre mulheres e homens devem ser combatidas em conjunto com as desigualdades sociais.
O alcance e a eficiência das políticas públicas dependem da mudança da orientação tradicional do Estado, para que essas sejam capazes de incidir na situação histórica de desigualdade.
Resgatar as mulheres como sujeito e foco das políticas implica em construir canais de debate para definir prioridades e desenhar estratégias para caminhar no sentido de transformar os organismos de políticas para mulheres nos governos (nos seus diversos níveis, federal, estadual e municipal) em interlocutores válidos para formular as políticas e efetivá-las, de fato.
As políticas públicas não são neutras: é preciso indagar o modo como são construídas e a quem beneficiam. Caminhar para políticas integradas de gênero é um desafio que o governo da Presidenta Dilma está disposta a enfrentar, caminhando pelas veredas abertas no governo Lula.
Vamos trabalhar para que políticas para as mulheres tenham amplo alcance e não estejam restritas apenas a projetos pilotos, ainda que reconhecidos como boas práticas ou experiências exitosas. Sem desmerecer o chamado “efeito-demonstração”, nos colocaremos a questão da disputa por recursos orçamentários e da garantia do controle social, das políticas amplas para reverter à condição de setores significativos das mulheres. Este é o desafio assumido pela Presidenta Dilma, fazer um governo que aponte para a transformação da vida das brasileiras. Porque como ela mesma disse: “mulher agora pode”!
Não economizaremos esforços para pautar no conjunto do Governo Federal a transversalidade das políticas para as mulheres. Temos encontrado apoio em diversas áreas de governo para impulsionar o alcance das ações para além da reparação das discriminações contra as mulheres – de todas as idades e de todas as raças e etnias.
A incorporação da transversalidade das políticas de gênero tem um centro político que é a SPM, mas deve estar presente em todos órgãos. Assim, é necessário fortalecer o Ministério das Mulheres, e também ousar em criar nos diferentes âmbitos do governo organismos responsáveis pelas políticas para mulheres e que alterem as atuais relações desiguais entre os gêneros.
A nossa Presidenta Dilma deu um importante passo ao nomear nove ministras de Estado. Este compromisso com as mulheres brasileiras também se traduz na realização de ações que possibilitem o aumento da autonomia econômica, pessoal, social e política das mulheres.
O governo Dilma também dá bom exemplo ao nomear mulheres para postos importantes no segundo escalão, nas empresas estatais, nas de economia mista, autarquias, enfim um sinal do governo para o conjunto da sociedade. É hora de as mulheres ocuparem mais espaços nos postos de comando. Faz parte do processo de ampliação da democracia.
Devemos estar atentas ao realizar o balanço do esforço realizado nos últimos oito anos, para avançarmos ainda mais.
A diferença salarial entre homens e mulheres no serviço público ainda persiste, isto porque as mulheres têm demorado a alcançar os postos de chefia. Os dados que temos indicam que as mulheres são menos de 5% em postos de diretoria e cerca de 11% em postos de gerência.
Na iniciativa privada, em grandes empresas, as mulheres representam menos de 15% dos cargos de presidentas, menos de 18% de vice-presidentas, cerca de 20% nas áreas de diretoria e 25% em gerências. Ou seja, quanto maior o cargo menor a presença de mulheres.
Apesar de estudarem por um período mais longo, obtendo no setor industrial, por exemplo, um ano a mais de escolaridade do que os homens, o diferencial de remuneração persiste elevado: em São Paulo, por exemplo, as mulheres recebem, por hora, 76% do rendimento obtido pelos homens e o desemprego feminino fica sempre acima do masculino. E quanto maior a escolaridade, maior a diferença salarial entre homens e mulheres na mesma ocupação. Esse padrão se repete em muitos países.
Ou seja, teremos de conceber e executar políticas efetivas de promoção de igualdade entre mulheres e homens para mudar este cenário e nas empresas públicas, no setor privado e no conjunto da sociedade.
Estamos prontas para encarar esse desafio.

Angélica Fernandes, 44, é mestre e doutoranda em ciências sociais pela PUC-SP e Secretária Nacional de Articulação Institucional e Ações Temáticas da SPM.

Fonte: http://www.pt-sp.org.br/artigo/?p=Opini%E3o&acao=verNoticia&id=3513

Anistia homenageia mulheres perseguidas politicamente

Postado por: setorialdemulheres em: ● 14 de março de 2011

Realizada em parceria com a Secretaria Especial de Políticas Públicas para as Mulheres (SPM), a Secretaria de Direitos Humanos (SDH) e a Secretaria da Mulher do Governo do Distrito Federal, a 13ª Anistia Cultural irá entregar seis portarias de anistia para mulheres que foram perseguidas politicamente durante a ditadura, em ato de homenagem e reconhecimento público. Na sequência será realizada sessão especial de julgamentos dos requerimentos de anistias políticas de quatro mulheres que enfrentaram a ditadura militar. Uma turma especialmente composta por nove conselheiras da Comissão de Anistia avaliará cada um dos processos.

Após os julgamentos haverá uma mesa de debates que tratará da importância da mulher na luta pelos direitos humanos e contra o regime de exceção. Três mulheres estarão à frente das discussões: a secretária Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça, Regina Miki, a deputada federal Luiza Erundina e a pedagoga Ana Maria Araújo Freire, viúva do educador Paulo Freire.

Além do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e do presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão, participam do evento as ministras-chefe da SDH, Maria do Rosário, e da SPM, Iriny Lopes, a secretária de Estado da Mulher do GDF, Olgamir Amâncio, e a presidenta da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, deputada federal Manuela d’Ávila (PCdoB-RS).

Até dezembro de 2010 foram realizadas 12 anistias culturais lembrando e difundindo momentos e temas relevantes para o processo de redemocratização do Brasil, sendo duas delas dedicadas a homenagens ao Dia da Mulher (2008 e 2009).

Serão homenageadas:

Sônia Hipólito – Militante da União Nacional dos Estudantes (UNE), foi presa pela primeira vez pelo DOPS/SP, por participar do congresso da entidade em São Paulo, em 1968. Em 1969 militou na Ação Libertadora Nacional (ALN), sendo presa novamente em 1970. Exilada em 1973, passou pelo Chile, Argentina, Alemanha e França, onde permaneceu até 1976. Voltando ao Brasil em 1979, passou a atuar junto a movimentos sociais e a militar no Partido dos Trabalhadores (PT).

Denize Crispim – Militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), foi presa quando estava grávida de seis meses de Eduarda, sua filha com Eduardo Leite “Bacuri” (de quem foi companheira até sua morte sob violenta tortura pelas forças da repressão). Sua soltura foi negociada mediante prisão do marido, visto por Denize pela última vez na prisão, desfigurado pelas torturas. Obteve asilo diplomático na Itália em 1971.

Rose Nogueira – Ex-militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), era jornalista quando foi presa pelo “esquadrão da morte” do DOPS, em 4 de novembro de 1969, em São Paulo. Abrigou diversos resistentes e revolucionários em sua casa, entre eles Carlos Marighella. Rose foi presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe) e do Grupo Tortura Nunca Mais/SP. Segue até os dias atuais com sua militância pelos Direitos Humanos.

Maria Thereza Goulart – Viúva do ex- presidente João Goulart, deposto em março de 1964, a primeira-dama exilou-se com a família no Uruguai e, posteriormente, na Argentina, onde Jango veio a falecer em 6 de dezembro de 1976. Maria Tereza voltou ao Brasil em 1976 para enterrar Jango, e em 1980 para viver novamente no país.

Rita Sipahi – Natural de Recife, foi dirigente da UNE, militante da Juventude Universitária Católica e participou da estruturação da Ação Popular no Ceará. Durante a ditadura emigrou para São Paulo e Rio de Janeiro, mas não conseguiu evitar seu seqüestro e prisão pelas forças da repressão. Foi condenada pela Justiça Militar de São Paulo. Após a ditadura, estabilizou-se enquanto servidora pública e seguiu atuando junto a movimentos sociais.

Damaris Oliveira Lucena – Militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), viu o marido ser morto na frente dos filhos por agentes da repressão. Foi presa e banida juntamente com os filhos Adilson, Ângela e Denise Lucena, que ingressaram no sistema prisional ainda menores de idade.

Terão seus pedidos de anistia apreciados:

Margarita Babina Gaudenz (BA) – Esposa de Carlos Fernandes, militante de esquerda. Considerada subversiva por denunciar a tortura de presos políticos fora do Brasil. Foi presa em 1971.

Iracema Maria dos Santos (SP) – Presa juntamente com o irmão e o marido, em 1969. Seu irmão foi baleado por policiais e torturado, não tendo resistido aos ferimentos. Iracema foi presa e igualmente torturada. Teve sua condição de ex-presa política, torturada, reconhecida pelo estado de São Paulo.

Helena Jório de Vasconcelos (MG) – Em dezembro de 1971, a anistianda, grávida e com uma filha de 11 meses, teve a residência invadida por mais de 10 agentes do Estado fortemente armados, e foi levada ao DOPS presa e encapuzada. Foi posteriormente enquadrada na Lei de Segurança Nacional. Professora do ensino público de Minas Gerais à época, informa ter sofrido forte pressão para afastar-se de suas atividades laborais, dada a perseguição política. Foi professora da PUC/MG e secretária Municipal de Educação de Ibirité (MG).

Linda Tayah de Melo (RJ) - Integrante da Ação Libertadora Nacional (ALN) desde 1969, foi presa por diversas vezes e submetida à tortura, tendo sido condenada a dois anos de prisão pela Justiça Militar. Em uma das prisões, a anistianda foi ferida na cabeça por tiro de arma de fogo, e, logo após, levada para uma sala de tortura para obtenção de informação. Não recebeu apoio médico durante todo o tempo em foi interrogada, apenas submetida a uma craniotomia. Durante uma de suas prisões, foi demitida do cargo de professora primária do Estado da Guanabara por “abandono de cargo”.

Serviço:
13ª Anistia Cultural em homenagem ao Dia Internacional da Mulher
Data: 15/03/2011
Horário: 9h às 13h
Local: Salão Negro do Palácio da Justiça – Esplanada dos Ministérios – Bloco T – Térreo – Brasília (DF)

Fonte: Ministério da Justiça

O sexo inventado

Postado por: setorialdemulheres em: ● 14 de março de 2011

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Dentre os quarenta e seis cromossomos do mapa genético humano, apenas um diferencia biologicamente as mulheres dos homens. Entretanto, esse detalhe microscópico foi o suficiente para dividir quase toda humanidade em dois grupos que se interpenetram sem nunca perderem sua distinção básica. Muitos irão concordar que homens e mulheres são diferentes do ponto de vista de seus corpos, de sua constituição psicológica e do papel que ocupam na sociedade. Porém, na contramão da diferença, a Antropologia teceu ao longo do século passado uma tradição que desmonta muitas de nossas percepções mais fundamentais sobre os sexos.
Um cromossomo é formado de diversos genes, de forma que o que separa homens de mulheres é a combinação de alguns bocados dessas partes minúsculas. Ainda assim, para a Biologia, esses detalhes são responsáveis pela constituição de corpos diferenciados, compostos de uma maioria de órgãos em comum e de outros que seriam exclusivos a cada um dos sexos. Além da caracterização genética e anatômica, há também uma diferenciação hormonal – as mesmas substâncias, mas em quantidades diferentes nos homens e nas mulheres.
Se a Biologia propõe uma diferença física, a interpretação do senso comum se apoia em uma diferença de comportamento e de papéis. Acima de tudo, mulheres são possíveis mães – após serem fecundadas, nutrem, carregam e dão à luz a um novo indivíduo, que deverá receber atenção por boa parte de sua vida. A poesia e a literatura descrevem com adoração e reserva esses seres fantásticos que transitam entre a sensualidade e a maternidade. Já os homens também tiveram historicamente seu papel: fecundar e prover o sustento para a mulher e para seus descendentes.
É verdade que as funções para os dois sexos mudaram ao longo da história. Atualmente, principalmente na sociedade ocidental, boa parte das mulheres integra o mercado de trabalho, e muitos dos homens realizam funções domésticas e participam da criação dos filhos. Ainda assim, algumas expectativas parecem manter-se fixas. Mulheres que abrem mão da maternidade ainda são vistas com certo estranhamento. Da mesma forma, um homem sustentado por sua companheira dificilmente não causará algum constrangimento.

NEGANDO OS PAPÉIS SOCIAIS
Em um primeiro momento, negar a ideia de que homens e mulheres são essencialmente diferentes parece algo absurdo, justamente por essa ideia ter extrema aceitação pela ciência e pelo senso comum. Entretanto, a abordagem antropológica sugere uma nova interpretação a partir de trabalhos que estudaram a fundo outras sociedades (especialmente as ditas sociedades primitivas) e as variadas maneiras como essas culturas enxergaram a realidade.
Pierre Clastres*, no capítulo “O Arco e o Cesto” de seu célebre livro A Sociedade contra o Estado apresenta a interessante cultura dos Guaiaquis. Nessa sociedade, assim como na nossa, as tarefas eram divididas entre homens e mulheres. Os primeiros se responsabilizavam pela caça, e as segundas, pela coleta e pelos constantes deslocamentos dos objetos pelo território, uma vez que se tratava de uma sociedade nômade. Sem adentrar profundamente em toda a rica análise que Clastres faz sobre as interdições ligadas aos sexos e às famílias, os Guaiaquis são importante para nosso tema porque trazem um exemplo de sociedade em que impera a poliandria, ou seja, a união da mulher com mais de um marido. Conforme sugere o autor, as mulheres Guaiaquis possuíam uma vantagem estrutural em relação aos homens: mesmo casadas, podiam ter relacionamentos com moços solteiros e transformá-los em maridos secundários se assim desejassem. Isso não significava que os maridos principais ficavam felizes, porém, esses não tinham muita escolha: se abandonassem suas esposas seriam condenados ao celibato, pois a tribo carecia de mulheres disponíveis. Já as esposas logo encontrariam outro marido, pois havia o dobro de homens em relação às mulheres.
Muito interessante na análise do autor é a ideia de que a desproporção numérica entre os sexos poderia ter sido solucionada por outros meios senão a poliandria. Seria possível que certos parentes considerados proibidos para o casamento passassem a ser permitidos. Também seria imaginável que houvesse um incentivo social ao celibato masculino ou que se admitisse o assassinato de recém-nascidos homens. De qualquer maneira, o modelo matrimonial verificado nessa tribo evidencia que dentre as infinitas possibilidades das culturas que já passaram pelo globo terrestre, os Guaiaquis são uma mostra de que o arranjo tecido pela nossa própria sociedade ao que diz respeito às relações entre homens e mulheres está longe de ser o único possível

De forma ainda mais sugestiva para essa ideia, Margaret Mead*, em seu livro clássico Sexo e Temperamento, questiona as noções mais comuns dos papéis sexuais ao apresentar três sociedades na Nova Guiné. A autora toma como base o que considerou serem os padrões norteamericanos: o comportamento feminino seria caracterizado por ser “dócil, maternal, cooperativo, não agressivo e suscetível às necessidades e exigências alheias”, e o comportamento masculino seria relativamente oposto a essa caracterização. Tomando esses padrões como referência, percebemos que cada uma das três tribos apresenta comportamentos diferentes para homens e mulheres. Dentre os Arapesh, por exemplo, tanto os homens como as mulheres exibiam uma personalidade que seria considerada feminina na sociedade norte-americana. Já os integrantes da tribo Mundugumor eram homens e mulheres “implacáveis, agressivos e positivamente sexuados, com um mínimo de aspectos carinhosos e maternais em sua personalidade”, apresentando um tipo de comportamento que, segundo Mead, só seria encontrado em um homem norte-americano “indisciplinado e extremamente violento”. Tchambulli é a terceira tribo apresentada pela autora e se caracteriza por uma diferenciação entre os sexos e uma clara inversão das expectativas de temperamento de nossa sociedade: a mulher é “o parceiro dirigente, dominador e impessoal, e o homem a pessoa menos responsável e emocionalmente dependente”.
Assim, a antropóloga chama nossa atenção para duas coisas. Primeiro para o fato de que é possível encontrar invertidos os comportamentos que nós estamos habituados para os sexos na nossa sociedade. Além disso, mostra a possibilidade de que as culturas não reconheçam uma diferença de temperamentos entre homens e mulheres. A partir dessa análise, ela conclui que “não nos resta mais a menor base para considerar tais aspectos de comportamento como ligados ao sexo”, uma vez que “a natureza humana é quase incrivelmente maleável, respondendo acurada e diferentemente a condições culturais contrastantes”. Isso seria possível porque as crianças das diferentes tribos seriam passíveis ao ensinamento do comportamento corrente em sua sociedade, seja ele “feminino” ou “masculino” (do ponto de vista da sociedade ocidental) e esteja ele sujeito ou não a uma distinção entre homens e mulheres.
Assim, a antropóloga chama nossa atenção para duas coisas. Primeiro para o fato de que é possível encontrar invertidos os comportamentos que nós estamos habituados para os sexos na nossa sociedade. Além disso, mostra a possibilidade de que as culturas não reconheçam uma diferença de temperamentos entre homens e mulheres. A partir dessa análise, ela conclui que “não nos resta mais a menor base para considerar tais aspectos de comportamento como ligados ao sexo”, uma vez que “a natureza humana é quase incrivelmente maleável, respondendo acurada e diferentemente a condições culturais contrastantes”. Isso seria possível porque as crianças das diferentes tribos seriam passíveis ao ensinamento do comportamento corrente em sua sociedade, seja ele “feminino” ou “masculino” (do ponto de vista da sociedade ocidental) e esteja ele sujeito ou não a uma distinção entre homens e mulheres.
Nesse sentido, o argumento é interessante no que diz respeito à diferença entre homens e mulheres: muitas das características corporais que distinguem os sexos seriam constituídas a partir de um treino social do corpo. A delicadeza feminina; a postura imponente dos homens; o jeito discreto de sentar das mulheres recatadas; o largar-se confortavelmente no sofá, tipicamente masculino; ou então a maneira sensual feminina de andar movimentando os quadris são todos exemplos das chamadas técnicas do corpo propostas pelo autor.

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*Pierre Clastres » Antropólogo francês, Pierre Clastres nasceu em 1934 e faleceu, vítima de um acidente, em 1977.

Castres integrou o Laboratório de Antropologia Social do Collège de France e deixou como principal legado

o livro A sociedade contra o Estado, coleção de ensaios publicados em 1974 e considerado uma das obras-primas da antropologia.

O CONCEITO DE GÊNERO
Mead, Mauss e Clastres, dentre outros autores, incutiram na tradição antropológica a ideia de que os papéis destinados a homens e mulheres não são explicados por uma diferença essencial inscrita na natureza de seus corpos. Ainda que sejam biologicamente diferentes, as peculiaridades anatômicas não explicariam as inúmeras outras diferenciações sociais entre os sexos: sejam elas de hierarquia, de status, de poder, de posição na divisão do trabalho, de personalidade, de comportamento e nem mesmo de seus trejeitos corporais.
Assim, se por um lado essa interpretação não nega radicalmente a perspectiva da diferença anatômica, afirma que a Biologia nada explica no que diz respeito à vida social. O argumento principal é que a natureza dos corpos é interpretada pela cultura que, por sua vez, origina inúmeros significados que transcendem as diferenças corporais.
A partir dessa rejeição à explicação biológica para as diferenças sociais, a Antropologia criou o conceito de gênero. “O foco da Teoria de Gênero é desconstruir a ideia de que existe uma diferença natural entre homens e mulheres que explique o que acontece nas sociedades”, define Heloisa Buarque de Almeida, antropóloga especialista no tema e professora da Universidade de São Paulo. “Por muito tempo se dizia que as mulheres tinham menos poder ou que estavam restritas à esfera doméstica por causa da reprodução e da maternidade, ou seja, devido a elementos associados ao próprio corpo feminino. A Teoria de Gênero tenta mostrar que nem todas as sociedades tratam as mulheres dessa maneira”, completa.
A professora explica que a origem do conceito de gênero estaria inicialmente associada às ciências médicas. “Gênero aparece na medicina nos anos 1950, no caso dos chamados distúrbios de gênero, como crianças que nasciam intersexuadas, ou seja, que tinham a genitália que hoje chamamos de ambígua, ou então pessoas que nasciam de um sexo e se diziam seres de outro sexo. Era usado quando a identidade do corpo da pessoa não combinava com aquilo que ela sentia sobre si”.
Na Antropologia, apesar da impossibilidade de se traçar uma genealogia exata, os estudos atuais colocariam a antropóloga norte-americana Gayle Rubin como uma das precursoras do uso do conceito. “O foco de Rubin era mostrar que a relação entre os gêneros não deriva da natureza, pois é histórica, decorre de um arranjo social e tem um momento de fundação. Apesar disso, acaba aparecendo ideologicamente como naturalizada”, explica Heloisa.

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*Margaret Mead » Doutora pela Universidade de Columbia e uma das grandes representantes do culturalismo, a antropóloga norteamericana Margaret Mead (1901-1978) publicou livros como Adolescência, sexo e cultura em Samoa (1928) e Sexo e temperamento em três sociedades primitivas (1935).

DEBATE COM A BIOLOGIA
Se parte dos estudos antropológicos afirmam que a explicação para a diferença social entre homens e mulheres só pode ser compreendida a partir do universo social que os permeia – sem, entretanto, negar que existam diferenças biológicas e anatômicas reais entre os sexos – outra parte radicaliza o argumento e nega a própria Biologia.
Nesse sentido, diversos estudos realizados nas Ilhas Trobriands representaram uma primeira aproximação, quase intuitiva, às teorias que desconstroem radicalmente a ciência. Considerado um dos principais fundadores da Antropologia, Bronislaw Malinowski intrigou-se no começo do século passado com a exótica interpretação que os trobriandeses faziam da gravidez e do intercurso sexual. Para essa tribo, o homem através da relação sexual que mantinha com a mulher não era responsável pela geração de crianças. A implementação do bebê no corpo materno seria realizada a partir de espíritos oriundos exclusivamente do lado da mãe, de forma que a função do pai era a de “abrir o caminho”, ficando excluído da ascendência sobre o novo ser. Além disso, os homens trobriandeses eram considerados responsáveis pelo crescimento e pela fisionomia das crianças, que seria formada a partir das relações sexuais que mantivessem com as mulheres grávidas.
Essa interessante interpretação sobre a reprodução humana abre caminho para pensarmos que a partir dos mesmos fatos (intercurso sexual, gestação e nascimento) inúmeras explicações e relações entre causa e efeito podem ser desenvolvidas pelas culturas. Assim, a compreensão do nascimento como decorrente da gestação, e esta última como consequência do encontro entre os gametas femininos e masculinos durante o intercurso sexual, não é uma decorrência inevitável do pensamento humano, mas sim uma particularidade do pensamento ocidental.
Por volta de meio século depois das investigações de Malinowski, Michel Foucault promoveu uma das principais críticas no sentido da desconstrução da ciência. O autor levou a já exposta ideia de Marcel Mauss (de que as técnicas do corpo seriam constituídas de um treino social) ao extremo. Afirma que não apenas os movimentos corporais são construídos socialmente e incutidos nos indivíduos, como também o próprio corpo é construído politicamente.
Para ele, absolutamente nada existe anteriormente ou externamente ao discurso humano. Toda a suposta realidade concreta só seria concebida pelos indivíduos a partir do “saber”, sendo que esse saber é entendido pelo autor como uma relação de poder que designa, nomeia e confere sentido a todas as coisas. Sua ideia central é a de que não existe uma “natureza natural”, ou seja, uma realidade anterior ao saberes e aos discursos humanos. Um bom exemplo nesse sentido é pensarmos que o câncer é uma enfermidade que tem uma presença relativamente recente no léxico da medicina. Antigamente, as pessoas que hoje dizemos que morreram em sua decorrência, morriam porque estavam velhas ou simplesmente sem que se soubesse o porquê. Apenas a partir do reconhecimento da existência dessa doença pela comunidade científica é que o câncer passou a existir no linguajar e no pensamento das pessoas. Da mesma maneira, os sintomas que hoje interpretamos como doença de Alzheimer ou como outras demências degenerativas eram simplesmente sinais de velhice, sem possuírem um sentido particular.
O essencial que os dois exemplos pretendem sugerir é de que apenas quando há um reconhecimento na sociedade de que certo elemento tenha um determinado sentido, que isso passa a estruturar a vida social e fazer parte da interpretação comum. Além disso, o reconhecimento dos sentidos das coisas (e também o reconhecimento da existência das próprias coisas) se realiza por meio de uma relação de poder. Assim, o saber ou o conhecimento, para Foucault, é sempre permeado por uma força porque designa positivamente o sentido das coisas.

Até esse ponto, deve ser coerente dizer que a teoria do autor implica em uma profunda crítica ao sentido da ciência, uma vez que nega seu aspecto de saber absoluto, neutro e apolítico, enfatizando a questão do poder que envolve diretamente todo o conhecimento que existe. Para essa concepção, ciência não é um aparato de técnicas imparciais, que descobre a realidade externa, imutável e objetiva. Muito pelo contrário, o argumento de Foucault sugere que a realidade que nos aparece como objetiva é, na verdade, construída por um saber inundado de poder.
Nesse mesmo sentido, a medicina seria um saber institucionalizado que implica em um controle dos corpos dos indivíduos na mesma medida em que impõe o sentido desses corpos. Assim, podemos começar a pensar na natureza supostamente diferente dos corpos femininos e masculinos como uma ideia longe de ser natural.
Para ilustrar a concepção foucaultiana de ciência, Heloisa Buarque de Almeida explica como ao longo da história da medicina diversos aspectos do corpo humano foram responsabilizados por determinados comportamentos. “No final do século XVIII, como mostra a autora Magali Engel, o comportamento feminino é imputado aos ovários. Quando a mulher é vista como tendo alguma perturbação mental, como louca ou como promíscua, o protocolo é tirar os ovários, mesmo que aparentemente estivessem saudáveis”.
Depois, conforme completa a antropóloga, o útero surgiria como o maior culpado pelos problemas emocionais, e a forma de tratamento mais comum para os chamados desvios mentais se tornaria a extirpação desse órgão. “Já por volta dos anos 1940-1950, ganha proeminência a ideia dos hormônios. Aparece na medicina que o comportamento chamado masculino é gerado pela testosterona, que passa a explicar a virilidade, tanto do ponto de vista da potência sexual, quanto de um comportamento agressivo e dominador dos homens. Essa visão também explica o comportamento mais afetivo e carinhoso das mulheres como sendo algo gerado pelos hormônios”, desenvolve.
Hoje em dia, nem mais os hormônios e tão pouco os órgãos reprodutivos: a força explicativa da ciência estaria na ideia dos genes, que passa a ser a causa maior da diferença sexual. “Os médicos indicam aspectos biológicos como determinantes do comportamento, mas esse lugar da natureza parece estar sempre mudando”, finaliza a antropóloga.
Na mesma trilha de Foucault, Thomas Lacqueur dá forma ao argumento do filósofo. Em seu livro Inventando o Sexo, o autor, a partir de um levantamento de manuais de medicina e de outros escritos do campo afirma que até meados do século XVIII havia uma concepção de sexo único, “no qual homens e mulheres eram classificados conforme seu grau de perfeição metafísica, seu calor vital ao longo de um eixo cuja causa final era masculina.”
Assim, segundo esse modelo que imperou até não muito tempo atrás, homens e mulheres não eram considerados fisicamente diferentes. Sua diferença era apenas em grau (homens tinham maior calor vital e maior perfeição). Essa concepção se manifestava nos manuais de medicina de tal maneira que não era descrita nenhuma forma de distinção anatômica entre os sexos. A convergência também se exprimia no fato de haver uma mesma nomenclatura para os órgãos que hoje são considerados específicos de cada um dos sexos. Lacquer afirma que “durante milhares de anos acreditou-se que as mulheres tinham a mesma genitália que os homens”, com a diferença de que a genitália feminina ficava dentro do corpo, enquanto que a masculina era externa. Os lábios vaginais eram considerados equivalentes ao prepúcio masculino, o útero era a mesma coisa que o escroto e os ovários seriam uma transposição dos testículos.
Impressiona na descrição de Lacqueur que essa maneira de conceber os corpos como iguais prevaleceu à prática da dissecação, evidenciando que não se tratava de um conhecimento baseado na impossibilidade de ser enxergar os órgãos, mas sim em uma forma de olhar e de interpretar o corpo diferente da que impera atualmente.
Também bastante revelador desse modelo de sexo único é a ideia de que sendo a diferença entre homens e mulheres apenas de grau e não de natureza, poderia haver uma mudança de sexo: “as meninas podiam tornar-se meninos, e os homens que se associavam intensamente com mulheres podiam perder a rigidez e definição de seus corpos perfeitos, e regredir para a efeminação”. Lacqueur apresenta um relato médico do século XVI que atesta para a possibilidade de se transitar entre os sexos: uma pessoa identificada até então inquestionavelmente como menina passa a apresentar um “pênis e um escroto externo”.
O caso que seria explicado hoje como um exemplo de intersexo (ou seja, de um indivíduo que possui o aparelho reprodutor ambíguo e que pode desenvolver novos órgãos na adolescência) foi considerado, naquela época, como a prova da possibilidade de mudança sexual. Essa anedota evidencia que, diferente do que normalmente pensamos, não é a simples visão dos corpos que condiciona a teorização que se fará sobre eles posteriormente; é o modelo corrente na sociedade que determinará a imagem que nossos olhos farão do que está em nossa frente.

Daniela Toviansky

No dia 13 de dezembro de 2010, faleceu a socióloga, professora e pesquisadora Heleieth Iara Bongiovani Saffioti, reconhecida internacionalmente por seus estudos sobre as questões de gênero e direito das mulheres. Professora da Unesp e da PUC -SP, Heleiteh Saffioti publicou o livro Gênero, Patriarcado e Violência (Fundação Perseu Abramo, 2004) .

UM MUNDO PÓS-GÊNERO?
A filósofa Judith Butler* em sua obra Problemas de Gênero, agrega aspectos do pensamento de Foucault e de Lacquer para afirmar que gênero é sempre um ato performativo, que se constitui apenas nas o feminino e o masculino. Assim, travestis e drag queens evidenciariam a natureza performática do feminino e sua artificialidade, inclusive nas mulheres.
Para a autora, se gênero é performance, longe de se desenvolver livremente, é regulado por uma matriz que pressupõem coerência entre o sexo biológico, as atuações de gênero, o desejo e a prática sexual. Assim, pessoas com a genitália feminina devem ser mulheres que têm desejo por homens e que devem manter relações sexuais e afetivas exclusivamente com o sexo oposto. Além disso, não seria possível em nossa sociedade a inexistência de qualquer performance de gênero pelos indivíduos, uma vez que o pensamento ocidental, além de incapaz de aceitar as descontinuidades e incoerências provenientes das subjetividades que não se adéquam à norma, também seria inábil em parar de localizar os sujeitos em relação às opressoras categorias de feminino e masculino. Assim, mesmo que os indivíduos subvertam alguns aspectos dessas regras, ainda estariam se posicionando em relação a elas.
Apesar da visão antropológica que propõe uma igualdade radical entre os sexos, Butler parece apontar para uma dificuldade em nos desvencilharmos das categorias de gênero, que seriam ordenadoras de nosso pensamento. A persistência se afirma em um mundo que, ao mesmo tempo em que muda, continua reiterando as barreiras entre homens e mulheres.
Ainda assim, mesmo que a crítica da Antropologia não implique em uma verdadeira libertação das amarras mais profundas em relação aos papéis de gênero – tão pouco no fim da opressão das subjetividades humanas dissidentes e na aceitação das múltiplas formas de sexualidade -, a disciplina fornece, certamente, um intenso estímulo ao nosso pensamento e à nossa capacidade de conceber um mundo diferente daquele que se apresenta aos nossos olhos, especialmente a partir do contato com outras realidades culturais que nos maravilham com suas vastas possibilidades.

Jreberlein at en.wikipedia


*
Judith Butler »
Filósofa norte-americana e professora da Universidade de Berkeley, contribuiu decisivamente para os estudos sobre gênero e teoria feminista. Seu livro Problemas de Gênero é tido como uma obra fundamental sobre a questão. É desde 2007 integrante da American Philosophical Society.

O contraponto da psicanálise

As teorias antropológicas sobre gênero em alguns momentos concorrem e em outros se completam com as perspectivas de outros campos do saber como, por exemplo, o da História, o da Filosofia, o da Psicologia e o da Psicanálise. Esta última oferece uma série de reflexões sobre a formação da personalidade, inclusive em sua interface com o gênero. Em uma conversa com a psicóloga e psicanalista Magdalena Nigro, professora do curso de especialização em Sócio-Psicologia da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, tentamos nos aproximar da teoria psicanalítica:

Homens e mulheres são diferentes do ponto de vista psicológico?
Cada ser humano possui uma estrutura de personalidade própria. Segundo Freud, essa estrutura é composta pelo “id”, “ego” e “superego”. O “id” é o domínio da pulsão, do desejo. Porém, a realidade impõe limitações à satisfação do desejo, por exemplo, por meio das experiências de espera. Dessa maneira, do confronto do “id” com a realidade forma-se o “ego”, que inicialmente é algo corporal e depois se torna uma estrutura psíquica. Já o “superego” é uma consequência do Complexo de Édipo e introduz a lei na vida da criança. Porém, a estruturação da personalidade ocorre de forma única em cada sujeito. Assim, as diferenciações de gênero aparecem ao longo do desenvolvimento do sujeito, em função desse processo de estruturação da personalidade.

Então, não nascemos sujeitos com gênero. Há um processo que causa essa diferenciação?
Nascemos com diferenças anatômicas. O corpo do homem e o corpo da mulher são diferentes. Mas a identidade de gênero, masculina ou feminina, é algo que no entendimento da psicanálise vai sendo construída ao longo do tempo, como consequência das vivências do sujeito na vida familiar e social.

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Como as teorias psicanalíticas entendem o processo dessa diferenciação?
O bebê quando nasce recebe um nome de mulher ou de homem, segundo seu sexo biológico. Dessa forma será identificado como sendo do sexo feminino ou masculino. Porém, a identificação sexual e a identidade de gênero serão constituídas a partir das identificações, fundamentalmente, com o pai e com a mãe. Imitando o pai ou a mãe, brincando de professor/a, médico/a, etc., o menino e a menina ingressam no universo do feminino e do masculino por meio da identificação com essas figuras. No final do complexo de Édipo, a menina se identifica com a mãe, como mulher, e o menino com o pai, enquanto homem. Assim, projetam-se no futuro, para fora de sua família original, como homem ou mulher, iniciando seu caminho para a feminilidade ou masculinidade.

REFERÊNCIAS
BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

CLASTRES, Pierre. A Sociedade contra o Estado. São Paulo: CosacNaify, 2007.

MAUSS , Marcel. “As técnicas do corpo”. In: Sociologia e Antropologia. São Paulo: CosacNaify, 2003.

MEAD , Margareth. Sexo e Temperamento. São Paulo: Perspectiva, 2000.

* Maysa Rodrigues é jornalista

Fonte: http://sociologiacienciaevida.uol.com.br/ESSO/Edicoes/33/artigo208724-1.asp

Convite – Comemorações do Março Mulher

Postado por: setorialdemulheres em: ● 14 de março de 2011

Convite – Comemorações Março Mulher

Postado por: setorialdemulheres em: ● 14 de março de 2011

Tolerância zero à mutilação genital feminina

Postado por: setorialdemulheres em: ● 11 de março de 2011


Por Leonardo Boff

A globalização como etapa nova da humanidade e da própria Terra, colocou não apenas as pessoas e os povos em contacto uns com os outros. Propagou também mundo afora seus vírus e bactérias, suas plantas e frutas, suas culinárias e modas, suas visões de mundo e religiões inclusive seus valores e anti-valores. É da natureza humana e da história, não como defeito mas como marca evolucionária, o fato de sermos sapientes e dementes e que, por isso, surgirmos como seres contraditórios. Por isso, junto com as dimensões luminosas que mostram o lado melhor do ser humano, por onde nos enriquecemos mutuamente, comparecem também as dimensões sombrias, tradições seculares que penalizam porções enormes da população. Por isso, devemos ser críticos uns aos outros, para identificar práticas desumanas que não são mais toleráveis.

Nós ocidentais, por exemplo, somos individualistas e dualistas, tão centrados em nossa identidade a ponto de termos grande dificuldade em aceitar os diferentes de nós. Tendemos a tratar os diferentes como inferiores. Isso fornece a base ideológica ao nosso espírito colonialista e imperialista, impondo a todo mundo os nossos valores e visão de mundo.

Semelhantes limitações encontramos em todas as culturas. Mas há limitações e limitações. Algumas delas violam todos os parâmetros da decência e basta o simples senso comum, para torná-las inaceitáveis. Elas parecem-se antes a violações e a crimes que tradições culturais, por mais ancestrais que se apresentem. E não adianta virem antropólogos e sociólogos da cultura saírem a campo defendendo-as em nome do respeito às diferenças. O que é cruel é cruel em qualquer cultura e em qualquer parte do mundo. A crueldade, por desumana, não tem direito de existir.

Refiro-me especificamente à mutilação genital feminina. Ela é praticada secularmente em 28 países da África, no Oriente Médio e no Sudeste da Ásia e em vários países europeus onde há a imigração destes países. Calcula-se que atualmente existam no mundo entre 115-130 milhões de mulheres genitalmente mutiladas. Outras três milhões são anualmente ainda submetidas a tais horrores, incluindo 500 mil na Europa.

De que se trata? Trata-se da remoção do clitóris e dos lábios vaginais e até, em alguns locais, da suturação dos dois lados da vulva em meninas com a idade entre 4-14 anos. Isso é feito sem qualquer preocupação higiênica com tesouras, facas, navalhas, agulhas e até pedaços afiados de vidro. São inimagináveis os gritos de dor e de horror, as hemorragias e as infecções que podem levar à morte, os choques emocionais e padecimentos sem conta, como podem ser comprovados em alguns youtubes da internet que não aconselho a ninguém ver.

Na Europa tais práticas são criminalizadas. As mães levam então as filhas aos países de origem, a pretexto de conhecerem os parentes. E ai são surpreendidas com tal horror que mais que uma prática cultural é uma agressão e grave violação dos direitos humanos. Por detrás funciona o mais primitivo machismo que visa impedir que a mulher tenha acesso ao prazer sexual transformando-a em objeto para o prazer exclusivo do homem. Não sem razão a Organização Mundial da Saúde denunciou tal prática como tortura inaceitável.

Vejo duas razões que desqualificam certas tradições culturais e que nos levam a combatê-las. A primeira é o sofrimento do outro. Lá onde a diferença cultural implica desumanização e mutilação do outro, ai ela encontra seu limite e deve ser coibida. Ninguém tem direito de impor sofrimento injustificado ao outro. A segunda razão é a Carta dos Direitos Humanos da ONU de 1948 subscrita por todos os Estados. Todas as tradições culturais devem se confrontar com aqueles preceitos. Práticas que comportam violação da dignidade humana devem ser proibidas e até criminalizadas. A lei suprema é tratar humanamente os seres humanos. Na mutilação genital temos a ver com uma convenção social desumana e nefasta. Dai se entende a instauração do dia 6 de fevereiro como o Dia Internacional de Tolerância Zero à Mutilação Genital Feminina.

Em cada 8 de março, Dia Internacional da Mulher, é o momento de nos solidarizarmos com estas meninas, vitimas de uma tradição cultural feroz e inimiga da vida e do prazer.

Leonardo Boff é teólogo e filósofo

Fonte: http://www.pt-sp.org.br/artigo/?p=Opini%E3o&acao=verNoticia&id=3486

Câmara promove exposição sobre os cinco anos da Lei Maria da Penha

Postado por: setorialdemulheres em: ● 9 de março de 2011

A mostra apresenta um histórico das conquistas das mulheres no Brasil e discute os avanços na luta contra a violência doméstica, alcançados depois da promulgação da Lei Maria da Penha, em 2006.

Até 31 de março, a Câmara dos Deputados exibe a exposição “Cinco anos da Lei Maria da Penha – Os avanços legislativos em defesa da mulher”. A Lei (11.340/06) tornou mais rígida e efetiva a punição a quem pratica alguma agressão contra mulheres. A mostra traça um histórico das conquistas das mulheres no Brasil e apresenta o que está sendo feito desde a promulgação da lei.

Promovida pelo Museu da Câmara, a exposição faz parte das homenagens da Casa ao Dia Internacional da Mulher (8 de março). O chefe do Museu da Câma ra, Casimiro Neto, explica que a mostra deste ano é a 11ª realizada pelo órgão em homenagem às mulheres. “O projeto foi uma iniciativa do Museu que, em 2002, em parceria com a bancada feminina, realizou a primeira montagem. Desde então, faz parte da agenda anual do Museu. A cada período, discutimos e avaliamos qual será tema abordado”, contou.

Lei Maria da Penha

A Lei Maria da Penha recebeu esse nome em homenagem à Maria da Penha Fernandes, mulher que sobreviveu a duas tentativas de homicídio por parte do ex-marido. A Lei triplicou a pena para agressões domésticas, permitiu que agressores sejam presos em flagrante, acabou com as penas pecuniárias (aquelas em que o réu é condenado a pagar cestas básicas ou multas) e trouxe uma série de medidas para proteger a mulher agredida, como a determinação da saída do agressor de casa.

Informações da Agência Câmara

Serviço
Exposição 5 anos da Lei Maria da Penha
Abertura: 1 de março, às 10 horas,  no corredor de acesso ao plenário Ulysses Guimarães
Visitação de 1 a 31 de março de 2011
Realização Câmara dos Deputados